O KORUPIRA
Entre
os differentes mythos brazileiros é incontestavelmente o mais antigo o do Korupira,
(1) companheiro inseparavel das crenças populares de todos os logares por onde
se estendeu o abanheenga, ou língua geral, pelo que parece ser verdadeiramente
indigena, senão antes, legado pela populaçao primitiva que habitou o Brazil, em
épocas anti-Colombianas e que descendia dos invasores Asiaticos.
Dos
Nahuas passou aos Karaibas e d'estes aos Tupis e Guaranis. Parece ser urna das
divindades secundarias sujeitas a Tlaloc. Como as que presidiam os ventos, as
chuvas, a abundancia, o milho, as montanhas, havia tambem a que presidia e
protegia as florestas.
Por
Venezuela, pelas Guyanas, pelo Perú e pelo Paraguay estende-se o o dominio do
Korupira; vae do Karaiba até o Guarani.
Anchieta
(1560), Fernão Cardin (1584), Laet (1640) e Acuña (1641) fallaram e acreditaram
mesmo em sua existencia. A civilização invadindo os centros em que a
rusticidade se aninha e devassando os sertões, tem modificado ou feito
desapparecer não só as lendas e contos primitivos, como a lingua, envolvidos na
onda do esquecimento.
Entre
elles vae tambem desapparecendo a do Korupira, adulterado aqui, confundido
alli, e por toda a parte mais ou menos modificada segundo o cunho especial do
meio em que existe e os emprestimós que a civilisaçao lhe tem feito,
O
Korupira, o numen mentium, de Marcgravius, que, segundo Simão de Vasconcellos,
é o espirito dos pensamentos, quer o padre João Daniel, que por espaço de 17
annos foi missionario no Amazonas, entre os annos de 1780 e 1797, que seja um
espirito habitante das florestas, que não pratica só o mal, porém muitas vezes
tambem o bem. Para mim não é tambem o espirito comico (neckischer waldgeist) do
venerando Dr. Martius.
(1)
Com algum desenvolvimento tratou d'este mytho o professor Carlos Frederico Hart,
no n.º 1 da Aurora Brasileira, de 22 de Outubro de 1873, dando tres lendas que
ouvio e estabelecendo as analogias que achou entre elle e o Lyeshy, dos Russos,
o Troll, dos Normandos, o Manobosho, de Schoolcraft. O professor Hart nasceu em
1840, em Frederictown, no Canadá; graduou-se em 1860, na Universidade de
Howard; em 1865 veio para o Brasil como membro da Thayer Expediction; em 1870
voltou novamente como chefe da Morgan Expediction; em 30 de Abril de 1875 foi
nomeado chefe da Comissão Geologica Brasileira, falleceu em 18 de Março de
1878.
A
crença mais geral, comtudo, confirmada pelas differentes lendas é que, o
Korupira é o senhor, a mãi, (cy), o genio protector das florestas e da caça,
que castiga os que as destroem, premiando muitas vezes aquelles que o obedecem,
ou de quem se compadece.
A
crença do genio das florestas vae tambem ao centro da Africa, onde acreditam Ir
que ha um demonio que anda mettido pelo matto sempre á espreita para fazer das
suas. Para afugentar o porco sujo, como chamam, teem os africanos como
infallivel a simples presença de um diabo fingido, que se veste de palhas e
cobre o rosto com uma mascara.»(1) Ossaim (2) o amigo da folhagem ou genio
protector das florestas, da costa da Mina, sempre armado do seu abêbê, façao de
latão, seria para mim o Korupira com seu machado de casco de yaboty, se tivesse
os pés ás avessas.
O
Korupira, como genio mysterioso e cheio de poder, apresenta-se sempre sob
varias formas e sob varias disposições de espirito.
Assim,
ora phantastico, imperioso, exquisito, ora máo, grosseiro, atrevido, muitas
vezes delicado e amigo, chegando mesmo a se apresentar bonanchão e compassivo,
ou ainda fraco, tolo e facil de se deixar en ganar. Apesar de tudo tem a
virtude de ser agradecido ao bem que se lhe faz, impondo comtudo condiçôes que,
quando não cumpridas, são fataes.
O
estrondo que se repercute ao longe, pelas florestas, das arvores velhas que
cahem; o barulho que fazem alguns pica-páos, cavando o alimento pelos troncos,
ruido que echõa surdamente pelas mattas, querem que seja tambem o Korupira a
causa d'elle.
Dizem
os credulos, quando isso ouvem, que é o Korupira com o seu machado, feito de
casco de Jaboty (Tapajós), que anda baten do pelas çapo-pemas das arvores, para
ver se estão seguras e podem resistir ás tempestades.
No
alto Amazonas dizem que bate com o calcanhar e, no baixo, em Obidos, que com o
penis, que é de tamanho extraordinario.
É
o Korupira quem nos mostra ou esconde a caça; quem nos revela os segredo das
florestas, as virtudes medicinaes das plantas, e nos dá os productos d'estas,
etc., conforme o seu bom ou máo humor, ficando furioso sempre que sente o piché
do couro queimado d'alguma caça.
(1)
Jornal da Infancia, 1, 1883, pago 109.
(2)
Nos Zungús ou casas de dar fortuna, no Rio de Janeiro, ainda nas satumaes que
fazem os africanos, invocam e representam esse mytho.
Segundo
as localidades assim são as formas sob as quaes se mostra, tomando a feminina
quaodo se apresenta aos homens, e querem mesmo alguns que haja Korupiras de
ambos os sexos (1) ou que seja casado com alguma tapuya velha, feia e má que o
auxilia nos seus malificios e da qual dizem que tem tambem filhos, o Benjamim
dos quaes é o Çaçy ou Korupira pitanga ou mitanga.
Em
Nogueira e Teffé dizem que a Korupira tem lindos cabellos, uma só sobrancelha
no meio da testa e que as mamas são sob os braços.
Se
não fosse a disposição dos pés do Korupira, eu diria tambem que era o genio dos
poetas Salesianos. transformado pelo meío e pelo tempo.
A
affinidade entre o Korupira (2) e Rubenzahl, o genio dos Montes Sudetos (3) na
Allemanha, é grande. Este domina e vive nas florestas, distribuindo o ouro de
suas montanhas rochosas, aquelle os productos vegetaes e protegendo a caça.
A
união intima que ha entre o povo que fallou o abanêenga e o Korupira, o
acreditar-se n'elle entre as tribus selvagens; a propriedade que tem este de
conservar sempre; sob qualquer aspecto que se apresente, os pés voltados para
traz para illudir o seu andar, separa a lenda brazileira da allemã e africana.
Filia-se
comtudo ao berço semitico. Com effeito na Asia, segundo as autoridades de
Plinio (4), Pomponio Mela (5), Solomo (6) e outros, como o Dominicano Frei
Gregorio Garcia (7) havia a crença nos «Hombres
con los pies bueltos a revés», assim como nos que tinham «orejas tão grandes, que para dormir la uma
les servia de colchon, i la otra de manta de cobrirse». A que o mesmo frade
pregador cita de «hombres con la pata tan grande, que les servia de defeza para
el sol, i agua»; tambem eu ouvi no Tapajós, ligado ao Korupira, assim como
Herbert Smith (8) tambem a ouvio em Santarem, senda corotudo isso, corrente na
Asia, d'onde a AIlemanha importou nos tempos primitivos.
O
Vidhr, o deus das florestas é um tivar, ou divindade dos Aryanos (9), filhos de
Odhin, chamada tambem o Silente.
(1)
Como tenho ouvido, ouviram tambem F. Comes de Amorim e Henrique Bates.
(2)
Um artigo do Panorama, sobre indios do Brazil, que a Revista do Instituto Historico
transcreveu, diz que o demonio é denominndo Cururupirá, que é uma corruptela
cuja interpretação nada tem de commum com o espirito das florestas, pois quer
dizer: Peixe-sapo.
(3)
Musaeus. Contes populaires de l¡ Allmagne.
(4)
Lib. 7, Cap. 2.
(5)
Lib. 3, Cap. 6 e 7.
(6) Polyhist., Cap. 55.
(7)
Origem de los indios de il nuevo mundo, Madrid, 1729. Libr. n, Cap. IV, pago
57, por Fr. Gregario (antes Jeronymo) Garcia, natural de Coçar, em Toledo, que
por espaço de 9 annos viveu no Perú e publicou a sua primeira edição em 1606-7
em Valença, in-U.
(8)
.Brazil the Amazons and the coast, pago 560.
(9) R. Brown. In Journ. of. the Victoria Institute,
XIV, pago 321.
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