APRESENTAÇAO
É doce, mas nao é mole nao
Por Xico Sá
O cabra mal começa, acabou-se. De tanto punch, de tao amargo, de tao doce - prosa-rapadura, contraditória?!
A gente le voando, priu, num sopro.
É porrada, mas sem ser chato. O cara tem a manha, a música que nao deixa esvaziar a pista.
Prosódia corrida que vem lá dos cafundós, lá de nós. Da moral dos banzos que guardam o possível blues da palha da cana. Os gritos que dao em Zumbis e negros que embranquecem, como no escravo do conto "Meu Negro de Estimaçao". Fábula à Michael Jackson?
Marcelino Freire escreve como quem pisa no assape, chao de barro negro, como a fala preta amassada entre os dentes, no terreiro da sintaxe, dos diminutivos dobrados nas voltas da língua, como o outre Freyre, o com "y".
É doce, mas num é mole nao. É música, de quem assobia e chupa a cana caiana das heran~as. De quem masca o baga~o das pestes, das chagas, dando um nó de pulha no falar da casa-grande, a fala supostamente civilizatória ...até hoje.
Assim falou Totonha, no seu canto XI: Morrer já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, nao uma doença.
Aqui nao tem o iluminismo besta.
Tem o pau-grande & a senzala embranquecida de desejos. É doce, mas num é mole nao.
Tem a assonancia, música que se bole entre Luiz Gonzaga e Caymmi, que vai deixando rastro, como num assobio da prosa esquecida e grande do Hermilo Borba Filho.
E o "Solar dos Príncipes", que conto! "Dialética do esclarecimento" para os sugadores estéticos da pobreza parda, branca ou negra. Sorria, sorry, periferia, voce está sendo invadido pelas cameras do cinema-verdade!
Na maciota, o Freire de Sertania, Pernambuco, e da bagaceira de Sao Paulo - nao o Freyre a sombra das pitangas de Apipucos -, dá belas chibatadas no gosto médio e preconceituoso, com gozo, gala, esporro, com doce perversidade, sempre no afeto que se encerra numa rapadura.
É doce, mas num é mole nao.
Esse é o mantra. Do Freire com "i" de Burundi e de Haiti, dos pretos de longe e dos pretos daqui de perto, das pretas, de todas as negas entregues aos tarados acidentais, das indias, das boyzinhas de Cuba e do Pina, da dor mesti~a, banzo de todas as freguesias.
Sao Paulo, Brasil, julho de 2005.
CANTO XV
MEU NEGRO DE ESTIMAÇAO
Meu homem agora é um homem melhor. Mora nos jardins, veste e calça. Causa inveja por onde passa. Meu homem nao tem para ninguém, só para mimo Meu homem se chama Benjamim.
Meu homem nao trabalha. Nao precisa mais se sujar de borracha. Meu homem nao fede a graxa. Meu homem agora dirige, au cuando nao pode, tem quem faça.
Meu homem leva sol na piscina. Meu homem viaja. Meu homem é urna bela companhia. Se nao entende de poesia, nao fala. cuando o assunto é politica, sai da sala.
Meu homem conhece o mundo inteiro. Meu ho,mem mudou de ares, trocou de cheiro. Entende de comida. Sabe escolher o vinho a mesa. Dança que é uma beleza. Meu homem valsa.
Meu homem é uma outra pessoa. Nao quer mais saber de samba. Nem de futebol. Nao gosta de feijoada. Meu homem nao quer voltar para casa. Foge de lá porque tem medo de levar bala a toa.
Meu homem é a coisa mais bonita. Os dentes perfeitos, o peito. Meu homem leva jeito para ser modelo. Mas eu nao deixo. Coloco, assim, um cabresto. Para ele nao me deixar tao cedo.
Meu homem me obedece e me respeita. Por increivel que pare¡ça mesmo quando me pone de quatro, me machuca, me prende a vara da cama. Quando me chicoteia.
Meu homem diz que eu serei seu escravo a vida inteira.
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