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KURUPÍ, ÚLTIMO BICHO PILINGÜE Y VELVET-MAKÁ-URBANIZADO KE HALA Y FALA EN ESTE BLOG SU SECRECIÓN LINGUÍSTIKA, ESE PORO'UNHOL (PORTUGUÉS 10 % ESPAÑOL 70 %; GUARANÍ PIKANTE 20 %) SERÍA EN EL FONDO DEFINIBLE COMO UN SAN CULOTTISMO POÉTIKO, GRITO A CALZÓN KITADO, PENE ERECTISMO FULL TIME, UNA FALANGE ANARKO-PARA-MILITAR DE LA LETRA, UNA ALUCINAZIONE PARANOKIA-KRÍTIKA DEL DAS KAPITAL YANKEE, Y SU MAYO DEL 68 UN TSUNAMI-YIYISMO SIN BOMBACHA PRA XUXU, UN BAILE DE SAN VITO TEVINANDÍ PAGUASU!!!

jueves, abril 03, 2008

Heloisa: literatura no es sólo placer...por eso prefiero falar de practicas literarias ke de 'esto es literatura'

Heloísa Buarque, la capa de la poesía marginal, la de la poesía y cultura hip hop que se curte en plena favela de Sao Paulo y Rio (me encante esa toponimia sangrintamente irónica del proyecto escolásrtiko de "utopía" medieval de Santo Tomás: Cidade de Deus!!!), paso dos días en Asunción, dos días fecundos en ideas y reflexiones incluso en polémicas...Cuando o poeta gua'ì-kurepa Montesino nos mande las fotos de la jornada de ayer haremos un petit balance de su charla y del conversatorio posterior ke hicimos con ella una panda de poetas semi marginales-chic-intelctuales-de-derecha-a-full asuncenos!!
Les dejo con un tijereado sacado del portal administrado por ella (para la cual ya me pecheó un textículo sobre poesía -periférika, under, no oficialesko de Paraguay-, yo encantado le dije sí conmovido por la invitación,sobre el hoy disperso, aislado y aún no cuajada escena cultural en una organización bien sólida como lo que está aconteciendo en Brasil, Argentina o Usa...

Foto tomada por el Ex Morales (de izquierda a derecha):

Cristino (Kuru) Bogado, Jorge (Kurepa-Guaí)Montesino, José (Brasiguayo) Alcázar -parados; Douglas (Hurakán Didí) Diegues, Everardo Coelho, Edgar (Pombero Tamaguxi) Pou, Heloisa, Emilio Pérez-Chaves (fuera de foko)-sentados

Mulher pública

Em entrevista com Heloisa Buarque de Hollanda, Gabriela Leite, fundadora da ONG Davida, do jornal Beijo da rua e da grife Daspu, fala sobre prostituição e política.

07 / 08 / 2006
Gabriela Leite, fundadora da ONG Davida, entrou para a faculdade de Sociologia da USP em 1969. Hoje, é referência nacional no trabalho social e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis com prostitutas. É também a criadora da grife Daspu, uma ironia explícita com a loja paulista Daslu, do jornal Beijo da Rua e autora de Eu, mulher da vida. Nesta entrevista, ela refaz sua corajosa trajetória de vida e analisa as principais questões que envolvem a prostituição. Heloisa Buarque de Hollanda: Vamos falar primeiro de você pessoa física e depois da pessoa política. (risos) Onde você nasceu, aqui no Rio?
Gabriela Leite: Não, nasci em São Paulo capital. Sou da Vila Mariana. Eu só saí de São Paulo no começo da década de 1980. Pela primeira vez na minha vida eu saí de São Paulo, porque paulista não migra muito, né?
HBH: É verdade! Nem carioca... só o Nordeste!
Gabriela: É, só o Nordeste que migra. Bom, estudei lá toda a minha vida. Sou de um tempo em que a escola pública era muito boa. Estudei em escola pública, num colégio muito bom de São Paulo, o Brasílio Machado, na Vila Mariana. Depois, eu fiz clássico e prestei vestibular na USP e fui fazer...
HBH: Sociologia?
Gabriela: Primeiro Filosofia. Daí não me dei bem e me mudei para Sociologia. Mas o meu vestibular foi de Filosofia. Eu participei muito na época, bom, era 1969, uma confusão. Eu comecei, assim, de bobeira, que eu sempre gostei de freqüentar botequim, né?! Eu saía da faculdade de noite e ia com o pessoal para um bar na Consolação, Redondo, que era bem perto do Teatro Oficina, perto dos artistas que estavam começando a história da contracultura, da porra-louquice, essa coisa toda. Foi aí que eu comecei entrar nesse grupo.
HBH: Você estava muito política nessa época?
Gabriela: Estava, mas eu era do grupo de pessoas que não gostava muito de ficar na discussão da revolução, nos DCEs. Então, eu ficava do outro lado. Esse povo da luta política strictu sensu dizia que nós éramos os porra-loucas, que não queríamos saber de nada da revolução, nada disso. Esse grupo foi muito importante para mim porque é daí que começa toda a minha história de discussão da sexualidade. Eu ainda sou dessa época em que as meninas eram virgens. A gente entrava na faculdade e saía mudado. E aí a discussão era muito grande a respeito da sexualidade. Eu era uma menina de classe média baixa, de uma família que, nesse momento, já estava morando mais para a periferia, porque o meu pai tinha morrido. Morrido não, tinha se separado da minha mãe.
HBH: Ele fazia o quê?
Gabriela: Meu pai era crupiê de cassino. Ninguém tem essa profissão né?! Eu tenho uma carteira de trabalho do meu pai de 1940 quando ele era registrado em cassinos porque o jogo não era proibido, era legal. Ele trabalhou no Cassino da Urca aqui no Rio, trabalhou em Recife, lá em São Paulo, em Santos, vários cassinos. Depois, o jogo foi proibido e ele começou a trabalhar em um cassino clandestino em Caxambu. Ele ficou em Caxambu por quinze anos, até a morte dele. Naqueles hotéis de Caxambu para os velhinhos.
HBH: Hotel Glória!
Gabriela: Tem o Glória e tem o outro, o Palace. Meu pai morava no Palace, um grandão!
HBH: Eles eram luxuosíssimos!
Gabriela: Eram, mas agora estão decadentes, né?! Eu estive lá.
HBH: Agora tem Congresso da Anpocs.
Gabriela: É!
HBH: E a mãe?
Gabriela: Minha mãe era do interior. O meu pai era da aristocracia paulistana. Meu avô tinha participado da Revolução Constitucionalista, e tudo. Era capitão. Eles eram pessoas muito ricas, mas eram decadentes. Eles ficaram pobres porque ninguém trabalhava. Eram todos boêmios. Tinham uma casa muito grande na Vila Mariana. Eu ainda conheci essas histórias. E eles tinham uma fazenda de criação de gado e café, evidentemente, em São Paulo, lá em Araras. A família da minha mãe trabalhava na fazenda. O meu avô era o cara que tomava conta das plantações e tudo mais. Meu pai, cansado um bocadinho da vida boêmia, foi passar uns dias na fazenda. Essa é a história que eles contam!
HBH: E se apaixonou?
Gabriela: Ela tinha 16 anos. Ele já tinha 30 e cacetada. Ao passo que ele era um cara todo cosmopolita, todo elegante, a minha mãe era uma mulher da roça, analfabeta...
HBH: Olha!
Gabriela: E descendente de guarani. A minha vó é guarani, índia. Você pode ver em mim algumas coisinhas de índia, a cor amarelada, a falta de pêlos. E aí, a minha mãe veio para São Paulo com o meu pai. Bom, ela deve ter passado o pão que o diabo amassou nessa história porque era um mundo completamente diferente. Minha vó era muito aristocrata.
HBH: E ele viajava muito...
Gabriela: Ele nunca estava em casa e ela ficava com a minha vó. Era maltratada, tratada como empregada. Ela sempre fala isso. Ela sempre fala dessas coisas. Ela tem muita mágoa.
HBH: E ela está viva?
Gabriela: Está viva! Ela vem aqui sempre no final do ano. Ela é de 1930. Ela até hoje não lê nem escreve, mas é muito inteligente. Ela é uma mulher que é toda São Paulo. Conhece os ônibus por cor, por número. Ela faz um tricô fenomenal. Ela vive de tricô, ela faz uns tricôs lindérrimos. Tudo assim, ela olha e faz. É muito esperta. Mas, por ela ser uma mulher muito rural, por não saber ler e escrever, ser analfabeta...
HBH: E porque era uma criança!
Gabriela: Exato. Minha mãe é muita conservadora, nas questões morais. Ela é extremamente conservadora, muito católica. Então, a gente tinha em casa um problema sério. Por um lado o meu pai, muito aberto, boêmio. Por outro lado, ela que segurava a gente dentro de casa.
HBH: Você tinha muitos irmãos?
Gabriela: Duas irmãs. Sendo que a minha irmã mais nova foi uma tentativa deles de salvar o casamento. Nunca vi filho salvar casamento!
HBH: Até que salva porque acaba de vez!
Gabriela: Acaba de vez! Foi o que aconteceu com eles. E a minha irmã é bem mais nova do que eu. Porque eu e a minha outra irmã temos onze meses de diferença. Eu sou a mais velha. E quando chega na Thais, ela é doze anos mais nova do que eu. Doze anos! Então, eu me lembro do nascimento dela, essas coisas todas. Mas aí, eram três mulheres e a minha mãe sempre prendendo. Era muito complicado! E por outro lado tinha o meu pai, tinha a família do meu pai, que era diferente da família da minha mãe. Nas férias de final do ano, a gente ia para o interior. A família da minha mãe imensa. O povo assim à beira do fogão de lenha. O meu avô pitando. A minha avó pitava também. E uma conversa completamente diferente na casa dos meus outros avós. Era muito complicado para nós. Mas a gente veio dessa história, eu e minhas irmãs.
HBH: Você se formou?
Gabriela: Não, não cheguei a me formar. Faltou pouquinho!
HBH: Por que você largou?
Gabriela: Pois é! Às vezes, eu tenho vontade de voltar. Às vezes eu tenho preguiça.
HBH: Não! Não adianta nada. Esquece isso. Você está bem melhor do que...
Gabriela: É! E dá uma preguiça! Eu vejo relatos, o Rafael na faculdade...A faculdade está muito fraca!
HBH: Muito! Mas e aí você largou por quê?
Gabriela: Eu larguei porque a minha vida mudou muito. Porque, nesse meio tempo, eu trabalhava para ajudar a minha mãe. Eu era a filha mais velha, tinha que ajudar. Eles estavam separados. Eu estudava à noite na USP e trabalhava em São Caetano, era secretária na Shell.
HBH: Longe para danar!
Gabriela: É! Eu saía de São Caetano e ia para a Cidade Universitária, que é do outro lado. E de noite, eu ainda ficava na conversa no botequim, com esse povo todo, porque eu estava aprendendo um monte de coisa. Então, as histórias começam a ficar feias para o meu lado. Eu não conseguia coordenar, uma menina né? Dezenove anos! Não conseguia coordenar muito a minha vida não. Eu precisava trabalhar de qualquer jeito e também eu estava cansada de trabalhar em escritório, bater cartão, essas coisas. Eu tinha muita sorte para arranjar emprego. Conseguia emprego à beça. Era uma época que ainda existia emprego. Principalmente em São Paulo. Aí eu comecei a me cansar de toda essa história e como a gente discutia muito as questões de sexualidade nesse grupo que eu pertencia...
HBH: Era o assunto do momento!
Gabriela: Era o assunto do momento. Chegou um ponto que eu comecei a ficar de saco cheio das nossas revoluções no botequim. E aí, eu tive uma idéia, e foi só para mim que eu falei dessa idéia, de ser bem radical, mudar tudo. Eu estava mesmo cansada! Hoje nós viemos de São Paulo, eu e o Flávio. E a gente pegou um táxi para ir para o aeroporto e enfrentou aquele trânsito infernal de São Paulo. Eu comecei a ficar nervosa, não agüento essa cidade. Xingo motorista de táxi, eu fico falando um montão. Eu tenho trauma de São Paulo! Por conta dessas minhas viagens "estrondorosas" que eu fazia todo dia na minha vida. Dormindo dentro do ônibus, que coisa horrível. Hoje em dia, que eu trabalho aqui e moro ali em cima, eu nem sei que preço é o ônibus porque eu não ando de ônibus. Só ando de metrô, táxi, carro do Flávio e a pé. É outro papo! Eu não gosto de ônibus. Eu detesto! Eu tenho trauma! E aí, hoje eu estava nervosíssima. Aí, eu resolvi mudar a minha vida. Mas isso foi só uma...
HBH: Uma decisão sua!
Gabriela: É. Sem falar para ninguém e tudo. A gente se reunia no Redondo. Os intelectuais ficavam ali em cima, no Riviera. Era esse povo da contracultura paulistana. E aí, ali perto desse bar, era a rua das boates de prostituição, logo ali. Qual é o nome daquela rua, gente? Major Sertório! É bem pertinho...
HBH: Isso é no Centro?
Gabriela: No Centro. Centrão mesmo, centrão antigo! A gente vinha de ônibus lá da Cidade Universitária e parava lá na Consolação.
HBH: Você não saía de dentro do ônibus!
Gabriela: Eu não saía de dentro do ônibus! Era um inferno total, com aquele trânsito de São Paulo. Porque não adianta as pessoas dizerem que hoje é pior do que ontem! Para mim foi horrível. E bom, ali era chamado de Boca de Luxo. Hoje em dia é decadente. E tinha um Hotel Hilton, na esquina da Major Sertório, que existe até hoje e aqui embaixo, onde eu ia ao teatro, era uma boate chiquérrima de prostitutas. Chamava-se Laricórnio. Ela era famosíssima.
HBH: Por que Laricórnio?
Gabriela: Não sei. Laricórnio. Era esse o nome dela. A dona era uma cafetina famosa de São Paulo, era a boate aonde os ricos iam, sabe, o poder paulistano tudo ia pra lá. E como a gente ficava sentado num bar muito ali perto eu via as mulheres chegarem de carro de vestido longo. Naquele tempo se usava vestido longo. Chegando para o trabalho, todas bem maquiadas, arrumadíssimas. Depois chegando aqueles homens chiquérrimos. Daí eu pensei: "Isso aí deve ser interessante".
HBH: Quase o mundo do cassino!
Gabriela: É! Quase o mundo do cassino! Aí eu resolvi conhecer as boates da Major Sertório. Mas nessa boate que eu estou falando eu nunca entrei. Eu só fiquei vendo de longe. Mas aí tinha um monte de boate. Tinha um montão. Hoje não tem mais nada. Tem um ou outro lugar, mas completamente decadente. Era como se fosse, não sei se você conhece, a Mem de Sá antigamente.
HBH: Sei!
Gabriela: Né?! Há muito tempo atrás tinha uma boate atrás da outra. Então eu entrei numa boate, a boate Michel. Entrei vestida no meu jeito de ser. A grande moda era se vestir de hippie, né?! Aquela saia até o pé. De chinelo, assim que eu fui. Mas aí eu cheguei, entrei e não gostei. Primeiro que eu não estava vestida da forma que eu deveria estar para entrar numa boate, a roupa mais sexy, sei lá o quê. E segundo por conta do barulho. Eu detesto boate até hoje. Aquela barulheira no ouvido! Não gosto! Aí, essa minha idéia de mudar de vida completamente terminou na minha entrada. Eu não me questionava absolutamente sobre o tipo de atividade que eu ia fazer. Eu me questionava sobre espaço e essa coisa toda. Aí, eu estou subindo a rua, meio chateada que essa minha incursão não deu certo. Parei num botequim para tomar uma cerveja, sozinha. E tinha uns homens ali na porta, tomando cerveja também e começaram a conversar comigo. Um deles perguntou o que eu tava fazendo ali na rua, que nunca tinha me visto, essa história que acontece na prostituição, os caras sabem quem é e quem não é. Aí eu contei minha triste história para ele, que tinha eu tinha ido na boate e não tinha gostado. Ele era marido da dona de um apartamento na Boca do Lixo, que tinha outra área de prostituição um pouco mais pobre, do outro lado do centro da cidade. O prédio em que eu fui trabalhar era na Barão de Limeira, aquela rua da Folha de São Paulo. Ali, Barão de Limeira, antes de chegar na Folha, Rua Vitória, Rua Aurora, tudo ali, era a Boca do Lixo. E aí, ele me deu o endereço dessa mulher, que era dona de um apartamento de prostituição lá na Boca do Lixo. Eu fui lá no dia seguinte. E lá eu fiquei para trabalhar na prostituição. Lá eu fiquei durante todos os anos que eu fiquei em São Paulo.
HBH: E ela era legal?
Gabriela: Era. Elza o nome dela. Bem legal. Porque eu, na verdade, eu não sei se é porque... é por isso sim... não sei... não, é sim. Toda vez que eu trabalhei na prostituição sempre foi aqui no Sudeste e nas capitais e sempre dentro de casa e nunca na rua, eu não tive problemas sérios de cafetina, de violência, eu não tive isso. Quando eu saí de São Paulo, antes de chegar no Rio, eu fui para Belo Horizonte. E Belo Horizonte também tem uma coisa bem estruturada. Depois eu cheguei no Rio. O Rio era o mais bagunçadinho, mas era o mais bonito para mim. Era o mais lindo de todos.
HBH: Quando que você chegou aqui?
Gabriela: Eu cheguei em 1982. Trabalhava em São Paulo. Aí, em 1979, tinha um delegado, lá na 3ª Delegacia que era a jurisdição do lugar, que era um maluco. Ele resolveu que as mulheres que trabalhavam nos prédios não podiam sair na rua. Então se você tinha que jantar, se você tinha que comprar uma revista, comprar uma roupa, não podia sair. Tinha que ficar presa dentro do prédio para a sociedade não ver as prostitutas.
HBH: De dia e de noite?
Gabriela: De dia e de noite. Era assim, não podia sair, tinha que mandar comprar marmita, comida fora.
HBH: Escravas!
Gabriela: E as meninas que saíam eles prendiam. Isso está tudo registrado em matérias da Folha de São Paulo da época. E aí, duas colegas nossas desapareceram. Uma inclusive estava grávida. Foram presas e desapareceram. Ficou um negócio muito ruim, todo mundo com medo e tal. Daí eu comecei pensar lá dentro do prédio, um prédio de oito andares, cheio de prostituta...
HBH: Vai pensar besteira quer ver?! Ela vai querer organizar...
Gabriela: Pensei que a gente podia fazer uma passeata.
HBH: Não disse?! Não disse que ia pensar besteira?! (risos)
Gabriela: Porque ninguém sabia o que estava acontecendo...
HBH: Não, claro! Claro!
Gabriela: E ninguém queria fazer. Mas quando a situação está muito difícil as pessoas vão à luta.
HBH: Vão!
Gabriela: Aí, fizemos uma passeata que foi um rebu na cidade de São Paulo. Imediatamente foi aquela história, os artistas vieram dar apoio. Sempre os artistas que deram apoio para a gente num primeiro momento de todas as nossas histórias. E aí, a Ruth Escobar que ainda não era nem política oficial, ela ofereceu o teatro da Rua dos Ingleses para a gente fazer uma assembléia. E fizemos.
HBH: Mas você tinha contato com uma rede maior ou era só nessa rua?
Gabriela: Eu não podia sair de dentro do prédio.
HBH: Pois é! Por isso que eu estou perguntando!
Gabriela: Então a passeata primeira que nós fizemos foi assim: eu chamei todas as meninas de dentro do prédio e as cafetinas que podiam sair...
HBH: Mobilizaram o resto.
Gabriela: É! Elas foram nos outros prédios. Articularam tudo e aí a gente fez a passeata. Conforme feita a passeata, saiu no jornal, começou o escândalo e essa coisa toda, aí já podia sair na rua.
HBH: A repercussão foi boa então?
Gabriela: Foi. Foi ótima. Então, daí a gente fez uma assembléia. Essa assembléia veio muita gente interessada em dar apoio e ajudar, além das prostitutas. Foi divino!
HBH: Como é que foi a divulgação disso?
Gabriela: O pessoal lá da Ruth Escobar, do teatro, do Teatro Arena.
HBH: Era boca-a-boca?
Gabriela: Era boca-a-boca nos prédios. Porque um prédio era perto do outro.
HBH: Só tinha São Paulo?
Gabriela: Só a Boca do Lixo, que era onde estava tudo acontecendo. Mas era muita mulher. Mas aí a gente conseguiu, com essa movimentação toda, cassar o delegado. O delegado saiu. Quer dizer, nunca ninguém descobriu o sumiço das meninas, mas... O que aconteceu com o delegado muitos e muitos anos depois foi que, um dia... Ele gostava muito de sentar num bar na Amaral Gurgel. Ele era gordo, imenso, aqueles caras nojentos. E um dia, ele estava sentado lá e as travestis da Amaral Gurgel reconheceram ele e lhe deram uma surra. Quase mataram ele. Eu já nem estava mais em São Paulo. O pessoal é que me contou da surra que ele levou.
HBH: Lavaram a alma?
Gabriela: Lavaram a alma! Deram uma surra nele. Ele passava toda a noite bêbado. Mas aí, depois dessa história, de ele ter sido afastado, as coisas caíram no esquecimento, ninguém mais investiga... E as meninas também não queriam mais aparecer. Porque é igual a todo movimento: está ruim todo mundo se junta, as coisas ficam boas todo mundo se esconde. Mas aí eu fiquei pensando duas coisas. A primeira é que eu já estava de saco cheio de São Paulo. A segunda, de que daria para começar alguma coisa com movimento, alguma história, na medida em que nós conseguimos fazer aquilo. Só que eu só conhecia aquela prostituição. Eu não era uma mulher, como a gente fala no meio, rodada. Eu só era daquele pedaço.
HBH: Você era parada!
Gabriela: Eu era parada! E aí, eu resolvi viajar, conhecer um pouquinho mais a prostituição.
HBH: Você tinha dinheiro para isso?
Gabriela: Não precisa! Viaja-se de carona de caminhão.
HBH: E fica onde?
Gabriela: Na zona. E lá se ganha dinheiro. Todo mundo faz isso. Você sabe que prostituta é muito...
HBH: Cigana?
Gabriela: Nômade, cigana. Anda por tudo.
HBH: E a sua família? A sua família a essa altura era a mãe?
Gabriela: Minha mãe, é! Eu nunca deixei de mandar dinheiro para a minha mãe. Eu sabia que ela precisava e ela ainda cuidava da minha irmã e tudo. Então, eu mandava. Mas a minha mãe, na verdade, ela não queria muito mais saber de mim, sabe?! Por conta de toda essa história! Porque a minha mãe é minha mãe. Eu também não queria brigar muito. E, bom, aí eu fui para um monte de cidades do interior. Um monte. Vim pela Fernão Dias, pelo sul de Minas, trabalhei em Três Corações, Três Pontas, um monte de cidades. E aí eu cheguei em Belo Horizonte. Gostava muito de lá.
HBH: Por quê?
Gabriela: Ah, porque é uma cidade ótima, eu adoro Belo Horizonte! Eu acho que a zona é muito arrumada. As pessoas são educadas. Eles são muito conservadores e é muito difícil você fazer amizade lá. Mas é uma cidade onde as pessoas são muito legais. Eu gosto. E a comida é ótima. Eu adoro comida mineira.
HBH: Ficou quanto tempo?
Gabriela: Um ano. Mas aí é assim, eu fiquei tão entusiasmada com Belo Horizonte, muito entusiasmada, e eu ganhava bastante dinheiro lá, que eu resolvi que ia morar por toda a minha vida em Belo Horizonte. Então, eu comprei um terreno e eu ia construir. Próximo assim do centro da cidade, eu ia construir uma casa para mim, ia mobiliar a minha casa, essa coisa toda, e depois eu ia ver o que fazer da vida. Ia voltar a universidade, mas lá em Belo Horizonte. Eu fiz todo um esquema para mim. Estava lá trabalhando e, um dia, conheci uma menina que era daqui do Rio de Janeiro e o meu grande sonho era conhecer o Rio. E ela, de tempos em tempos, ia para Belo Horizonte trabalhar. Mas ela era daqui. Então, eu, tomando cerveja com ela um dia, falei que tinha vontade de conhecer o Rio e ela falou: "Então vamos! Quando terminar o fim de semana eu vou voltar. Você passa uns dias lá em casa". Então eu vim para passar uns dias, para conhecer as praias do Rio. E como toda e qualquer prostituta que vem para o Rio de Janeiro, eu cheguei no mesmo lugar que todo mundo chega: na Prado Júnior, em Copacabana. Todo mundo chega na Prado Júnior e essa minha amiga morava lá, num conjugado. Aí eu fiquei. Ia para a Praia do Leme, até hoje a minha praia predileta. Eu ia de manhã cedinho e ficava até de noite. Aí de noite eu ia para a casa da minha amiga, tomava um banho e saía de novo. O Rio de Janeiro era pequeno para mim. Eu tinha um sonho de conhecer o samba. Apanhei um ônibus e fui até a Portela. Para mim tudo era uma grande maravilha. Aí acabou meu dinheiro. E eu tinha que voltar para BH. Mas eu pensava: "Vou ficar mais uns dias aqui". Aí eu fui com essa minha amiga, ela trabalhava ali numa boate na rua Berlfort Roxo, na boate Pussycat que existe até hoje.
HBH: Sei, sei qual é!
Gabriela: Ela trabalhava lá. Então eu fui lá com ela. Só que quando eu cheguei eu fui barrada na entrada...
HBH: Por quê?
Gabriela: Porque eu era branca. Era uma boate para homens que gostavam de mulheres negras. (risos)
HBH: Ah, mentira!
Gabriela: Acredita? Lá em Copacabana tem essas coisas. Tem boate especializada. Tem boate lá, as meninas sabem os nomes, eu não sei, que só atende clientes japoneses. Então naquela boate não entra mulher negra porque os japoneses não gostam de mulher negra. Tem outras boates que só entram mulheres negras, não entram brancas. Tem outras que são somente para brancas. Eu não sabia né?! Estava aqui a pouquíssimo tempo, duas semanas, três. Eu fui barrada ali, mas eu podia ir a outra. De qualquer forma, eu não gostava de boate, eu só ia para ganhar um dinheirinho para dar continuidade para alguns dias a mais de férias. Daí eu falei para a minha amiga: "Escuta, não tem uma zona aqui no Rio de Janeiro como eu conheço em São Paulo, como você vai em Belo Horizonte?". E ela disse que tinha a Vila Mimosa, não a nova, a antiga. Porque fazia poucos anos que tinham derrubado a zona do mangue e eu não conhecia a zona e era imensa. E aí ela me falou: "Você não vai lá, né? É muito perigoso lá só tem bandido!". E eu não tenho problema com isso, vim lá da Boca de Lixo de São Paulo. Então, esse é um dia muito importante na minha vida que eu nunca esqueço. Eu atravessei a rua, tem um Bob´s ali, tinha um ponto de ônibus ali na Nossa Senhora de Copacabana. Eu peguei o 433 que era vermelhinho, primeira vez que eu apanhei ônibus no Rio de Janeiro, era vermelhinho e fui para o Estácio. E aí eu desci do ônibus ali e entrei na Vila Mimosa e amei. Parecia zona da cidade do interior. Tem uma baita cidade com uma zona do interior. Agora não, agora é outra coisa essa zona nova. É horrível! Eu amei! Aquelas máquinas de música tocando em todas as casas. Aquelas músicas bregas, né?! Tudo colorido... A imagem que eu tinha da Vila Mimosa era a de uma grande festa. Aí eu fiquei. Fui ficando lá, fui ficando lá. Só voltei para Belo Horizonte para buscar minhas roupas. Não vendi meu terreno e já perdi.
HBH: Por quê?
Gabriela: Porque foi ocupado. Mas também eu sou tão desligada. Não tenho nem que brigar com relação a isso. Isso faz tantos anos. Aí fiquei aqui, fui ficando. Fui morar na zona, não queria mais morar em Copacabana. Eu adorava zona. E fui de lá para o Estácio. Até hoje eu adoro o Estácio.
HBH: Porque que você adorava a zona? Qual a diferença da zona para Copacabana?
Gabriela: Ah, porque lá era uma grande festa sempre. Você trabalhava, ganhava dinheiro, conversava muito. Copacabana, não. Você vai na praia, não conversa com ninguém, não é verdade? Naquela época que eu vim para o Rio era um sonho ver a praia de Copacabana. Hoje em dia, eu não gosto de praia. O encanto passou. Detesto areia. O Flávio, tadinho, que sofre com isso. Só vai para a praia sozinho. Daí, eu fui ficando lá na zona e, um dia, aparece a Benedita da Silva, recém-eleita!
HBH: Governadora do Estado?
Gabriela: Eu acho que era vereadora. Acho que era a primeira eleição dela. Quando a Lúcia Arruda era deputada estadual, ela era vereadora, né?! Um dia, ela foi na zona, ela ia fazer uma atividade que se chamava I Encontro de Mulheres de Favela e Periferia e foi convidar a gente para ir. Ela conversou com as meninas e elas falaram assim: "Ah, tem uma paulista aqui que adora essas coisas". Nem precisa falar que era eu, né?! Aí, me chamaram, ela me explicou o que era, perguntou se eu queria. Eu falei: "Eu vou se outras meninas forem". Começamos em quatro no encontro. Lá estava a Lúcia Arruda, a Ângela Borba, que morreu, um monte de gente estava nessa reunião. Tinha uma mulher que tinha um programa de rádio, feminista que morreu, Beth Lobo, pode ser? Beth Lobo...
HBH: Pode. Desastre de automóvel...
Gabriela: Foi a primeira entrevista que eu dei na minha vida foi para ela. Ela estava nesse encontro. E aí, chegou uma hora que elas falaram para nós: "Vocês não querem falar nada?". Ninguém queria falar, daí eu falei: "Tá bom, eu falo", e foi a primeira vez que falei em público. " meu nome é Gabriela, sou de São Paulo, estou morando aqui e sou prostituta". E aí, foi um rebu! Uma prostituta que fala, né?!
HBH: Não pode falar...
Gabriela: É! Bom, aí começou toda uma onda. Eu dei essa entrevista para a Beth Lobo. Logo mais, eu fui procurada pela Folha de São Paulo e dei uma entrevista para o Alfredo Ribeiro. E,depois disso, eu fui convidada para ir na televisão para o Noites Cariocas da Scarlet Moon e do Nelson Motta. E aí começou uma história de ficar prostituta pública nos dois sentidos, né?! Pública e pública. Até que um dia eu fui convidada para ir num seminário para falar sobre prostituição, para contar a minha vida. Porque era sempre assim: contar a minha vida, como se eu fosse a única prostituta do país, em vez de falar de assuntos mais... Até hoje ainda acontece isso. Quando você vai num seminário, em vez de falar de política, as pessoas ficam te fazendo perguntas sobre a sua história. Aí, eu fui num seminário no [Instituto Metodista] Bennett. Na mesa, estava o Rubem César Fernandes. Quando terminou o seminário, tinha tido muitas perguntas para mim, aí o Rubem perguntou se eu não queria ir sistematizar o meu trabalho no Iser [Instituto de Estudos da Religião]. O Rubem tratava disso tudo. Eu aceitei.
HBH: Você fez um projeto?
Gabriela: Eu tinha um sonho de fazer um encontro nacional, viajar várias partes do Brasil e conhecer outras prostitutas, lideranças para a gente fazer um primeiro encontro nacional. Então eu fui para o Iser. Lá no Iser, disseram que ia ter uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra e que levariam um projetinho meu. Eu sei que eu sentei ali na Taberna da Glória e escrevi um. Meu projetinho foi aprovado. Sete mil dólares foi a história.
HBH: Onde você fez o primeiro encontro?
Gabriela: Aqui no Rio. No [Centro de Artes] Calouste [Gulbenkian], lá num auditório.
HBH: Qual era a pauta desse encontro?
Gabriela: Olha, eram várias, várias questões. A profissão, isso, um monte de coisa. Mas, a história da violência policial era tão forte, que tudo virou violência policial. Foi o tema macro do encontro.
HBH: Estava na época de repressão ainda?
Gabriela: Não. É porque a polícia sempre reprimiu muito a prostituta. Nossa! No Nordeste a coisa era feia.
HBH: E a legislação?
Gabriela: Não existe nada contra prostituta.
HBH: E eles agem em nome de quê?
Gabriela: Agem em nome da moral e dos bons costumes. E pegam dinheiro em nome da corrupção. Pegar dinheiro de puta. É verdade. Agora, quem está no crime são os donos da casa. Mas muita coisa mudou. Eles não chegam mais assim.
HBH: Mas na época, e provavelmente muito para trás, toda ação policial era sem apoio legal?
Gabriela: Sem apoio legal! Totalmente!
HBH: Só porque não queria te ver?
Gabriela: É. Exatamente. Faziam limpeza de rua. Limpar a rua era tirar as mulheres. Levavam para a delegacia, davam uma volta no carro, pegavam todo o dinheiro...
HBH: Chegava a matar? Espancamento? Era o quê?
Gabriela: Tudo. Espancamento. Tirar dinheiro. Transar de graça. Era um monte de coisa. Agora quem está contra lei, pelo código penal, são os donos de casa, as cafetinas, os donos de hotel. Para esses caras, eles vão lá e pegam dinheiro também.
HBH: Por que estão contra lei? Que lei é essa?
Gabriela: Está no Código Penal, exploração da prostituição. Por isso nós estamos com um projeto de lei de autoria do Fernando Gabeira no Congresso Nacional para tirar tudo isso do Código Penal, para que esses caras passem a transar os seus deveres com as prostitutas. Porque prostituta não tem direito nenhum. Está tramitando isso aí. Eu acho difícil de sair nesse ano.
HBH: Quando foi o primeiro encontro, o ano?
Gabriela: Ah, foi em 1987. Se você vir o vídeo lá de 1987, está lá o Gabeira. Sempre, desde o início. Ele nem era ainda deputado e já estava com a gente. Fora o Gabeira...
HBH: Nelson Carneiro!
Gabriela: Nelson Carneiro, é. Esteve com a gente. Estou sendo injusta!
HBH: Mas escuta, a gente está lá no encontro de 1987. Eu quero saber agora a sua militância.
Gabriela: Era muito difícil essa primeira reunião. Era a primeira. Mas a gente conseguiu tirar um relatório de prioridades. Quem nos ajudou, como consultor na época, senão não ia sair nada, foi o Marcos Arruda. E o Marcos Arruda é chato demais da conta então...
HBH: Por que ele ajudou?
Gabriela: Porque eu o conhecia das idas lá no Iser. Ele era do Ibase nessa época. Ele veio se oferecer, se precisava de alguma ajuda e alguém no Iser falou que o Marcos Arruda era muito bom para dirigir reunião. Então, eu perguntei a ele se ele queria fazer isso. E foi ótimo!
HBH: Mas isso tudo tinha apoio e era ligado ao Iser?
Gabriela: É. E a minha vida no Iser não foi fácil. Eu engordei inclusive por conta de todas essas questões, porque lá era um balé de gato. Tinha de tudo lá dentro. Tinha religiosos, gente mais moderna, tinha gente que trabalhava com o meio ambiente, tinha tudo! Chegou uma época que o Iser tinha 120 funcionários e um monte de programas e o Rubem pairando sobre todo mundo. E as pessoas não gostavam muito de mim lá e essa história de prostituição com o nome do Iser na imprensa, porque quem mais aparecia na imprensa éramos nós. E aparecia o nome do Iser metido nessa história da prostituição e isso sempre foi um problema lá dentro. Em todas as assembléias, era sempre muita briga, muita história. Até que chegou um ponto... Mas continuei fazendo as coisas e aí eu consegui alguns financiamentos também.
HBH: Internacionais?
Gabriela: Internacionais e tudo.
HBH: E você ainda morava lá na zona?
Gabriela: Ih, você nem sabe como a minha vida era horrível porque...
HBH: Lá vem o ônibus!
Gabriela: Não tinha ônibus. Eu saí da minha vidinha de classe média baixa, de estudante e fiquei na zona. Estava toda aclimatada a minha vida e tal, organizadinha. Volto para o lado de cá. Foi muito difícil para mim. Eu passei acho que mais de um ano... O Flávio já me conhecia nessa época e ele conta isso. Eu andava com uma sacolinha na mão. Eu não tinha casa. Eu não conseguia me mexer para arranjar uma casa para morar. Eu ia dormir na casa de amigos. Eu ia para a zona. Porque eu não queria dizer para mim mesma que eu tinha saído da zona. Eu não queria dizer isso para mim mesma. Foi difícil!
HBH: Mas isso era por causa do tipo de trabalho que você estava fazendo, né? Precisava de um pouco de fidelidade.
Gabriela: É! Aí, eu ia lá. Tinha dias que eu não ia. E eu andava com uma sacolinha assim, sabe, sacolinha de loja, de papel, com calcinha, escova de dente, essas coisas assim. Quase uma ano foi isso. Até que, finalmente, eu resolvi dar uma arrumada na minha vida. Eu tomei duas atitudes. Fui procurar apartamento, aluguei um conjugado aqui na Hermenegildo de Barros, que eu estou morando nesse pedaço há muito tempo. E fui ao médico endocrinologista para fazer uma dieta porque eu estava imensa. Agora eu estou um pouquinho gordinha mas aquela época eu estava muito gorda, de tanta ansiedade. Imagina, eu fiz uma dieta e emagreci onze quilos. Onze quilos para o meu tamanho é muita coisa.
HBH: Não engordou mais?
Gabriela: Não, mas agora eu estou um pouquinho gorda. Mas não engordei mais daquele jeito não! E aí foram as duas atitudes que eu tomei. Daí eu falei que tenho que parar de frescura, não estou na zona mesmo. Sou eu que estou procurando tudo isso para mim, então vamos lá! Quando a gente fez o encontro de 1989, o segundo encontro, eu já estava magra e já tinha casa. Então, era uma outra história. No encontro de 1987, uma das decisões que a gente tomou foi fazer um jornal.
HBH: Que foi o Beijo!
Gabriela: Que foi o Beijo da Rua. Daí, eu conheci o Flávio lá no Iser. Ele era responsável pelas publicações. Como o Flávio tinha ajudado muito a gente na coisa de imprensa no encontro de 1987, eu perguntei se ele aceitava fazer o jornal para a gente. O jornal não tinha nome nem nada. Nós fizemos um concurso para escolher o nome.
HBH: Fez o concurso onde?
Gabriela: Lá no Iser. E aí se criou o Beijo da Rua. Em dezembro de 1988 foi lançado. Aí ele começou a ir para várias áreas de prostituição. Eu tinha um financiamento para isso. Desde então, o Flávio é editor do jornal. 1989 foi ano que nós começamos a trabalhar com prevenção de AIDS. Eu fui chamada no Ministério da Saúde, que chamou a gente, as prostitutas e os homossexuais, para fazer campanhas específicas. E foi aí que nós começamos, junto com as meninas do Belém do Pará, porque a gente já tinha uma coisa um pouquinho mais organizada em Porto Alegre, em Belém do Pará, em algumas cidades do Nordeste, como Fortaleza, e também na Paraíba.
HBH: Vocês estavam aqui ou no Iser?
Gabriela: No Iser. E a briga maior com relação a mim começou naquela época porque eu fui ao Ministério da Saúde. O Ministério da Saúde ofereceu financiamento de projeto para a prevenção de AIDS, eu aceitei como coordenadora do programa que eu tinha. Quando isso entrou no Iser, foi uma briga, porque era uma época em que se dizia que ONG não podia aceitar financiamento público, do Estado brasileiro. E, como todo o financiamento dos primeiros anos do programa de AIDS nacional foi do Banco Mundial, aí ficava pior ainda, porque o povo dizia que não tinha que aceitar dinheiro do Banco Mundial. Então, foi um rebu danado, uma briga muito feia. E, nesse meio tempo também, isso já foi em...
HBH: A ONG é de quando?
Gabriela: Nós fizemos a Davida em 1992, saímos em 1991 do Iser. Em 1991, eu comecei a namorar com o Flávio. A gente era muito amigo, muito amigo e a gente começou a namorar.
HBH: Você tinha outro envolvimento antes?
Gabriela: Muitos.
HBH: Mas já tinha estado casada?
Gabriela: É, eu tive dois caras com quem eu vivi. Não tanto como o Flávio. Nunca tive muita paciência com homem, mas o Flávio...
HBH: Está há quanto tempo com ele?
Gabriela: O Flávio? Desde 1991. Mas o Flávio é especial, né?! Não é nenhum machão da vida, um amor de pessoa. E daí, quando chegou dezembro... Nós começamos a namorar em novembro. Em dezembro de 1991, tinha festa de Natal no Iser. E eu cheguei para a festa e o Flávio estava dando plantão no jornal, ele trabalhava no JB. E eu cheguei na festa e tinha umas mulheres lá do Iser, elas tinham feito um manifesto contra mim no dia da festa de Natal. Ficaram distribuindo panfleto dizendo que eu era uma pessoa vendida para os Estados Unidos, para o dinheiro do Banco Mundial.
HBH: Tinha muito isso na época.
Gabriela: Não tinha? Mas, além disso, eu era uma mulher muito perigosa e todas as mulheres de lá tinham se juntado porque eu tinha roubado o marido de uma pessoa, que era o Flávio. E isso não era verdade, o Flávio já estava separado há muito tempo. Foi a mulher que se separou dele. Elas botaram isso lá, numa carta de Natal. Foi horrível! Eu fiquei muito triste. Quando o Flávio chegou na festa... Eu só fiquei esperando o Flávio chegar para eu ir embora, eu não me agüentava ali dentro. O Flávio ficou até doente, tadinho. Eu sou mais forte que ele nessas coisas. Ele ficou doente, de cama, com a história. Quando eu voltei do recesso de Natal, cheguei na direção da instituição lá para o Rubem e falei: "Eu vou embora, não vou ficar mais aqui! Não agüento mais tanta briga, não agüento a baixaria dessa carta! Acho que vocês estão todos doentes e eu não vou ficar doente junto com vocês". "Ah, mas você não pode ir embora!". Ofereceram-me para eu ficar em outra casa sozinha, mas eu não queria nada. Daí o Rubem falou: "Bom, então está certo, o direito de todo funcionário quando não está feliz com o seu emprego é pedir demissão e ir embora". Eu falei: "Não, Rubem. Eu não sou uma funcionária qualquer. Eu iniciei um trabalho aqui dentro quando você me convidou, eu tenho uma documentação imensa aqui dentro que é de todo esse programa que é do movimento de prostitutas e eu vou levar tudo embora!". E tem o Beijo da Rua que era registrado no nome do Iser. E ele disse: "Bom, para isso tem a Justiça!". Eu falei: "Exatamente". Contratei um advogado, o Iser também. Foi um ano de negociação.
HBH: Para você tirar o acervo?
Gabriela: Tudo!
HBH: Acervo e a revista?
Gabriela: Acervo, jornal, os projetos que eu tinha lá dentro, tudo. Ah, no dia que eu saí, o Flávio resolveu também sair. Saímos nós dois e a gente criou a Davida.
HBH: O que quer dizer Davida?
Gabriela: Davida vem de mulher da vida. Só que está tudo junto. Não é sigla porque nós destestamos sigla. Eu detesto sigla! Era um nome que o Flávio tinha sugerido para o jornal, só que ele perdeu. Aí, em julho de 1992, criamos a Davida porque, na negociação, não podia ser negociação com pessoa. Tinha que ser instituição com instituição. Aí a gente negociou tudo. Consegui até os móveis. Os móveis que estão por aí é tudo daquele tempo. Porque eu tinha comprado com o dinheiro do projeto, era nosso!
HBH: Mas durante esse um ano você ficou em suspenso, sem fazer nada?
Gabriela: Ah, eu continuava trabalhando. Já estava negociando com o Ministério da Saúde a transferência da nossa parceria com o programa nacional de AIDS, que vem desde 1989, que, hoje, é considerada exemplar no mundo inteiro. Eu fazia muita questão da continuidade dessa história. Agora, dinheiro eu não tinha nenhum, porque a gente estava em negociação. Mas daí o Flávio trabalhava no JB e a gente foi indo. Em julho de 1992, tinha um senhor que era presidente de um bloco de carnaval lá no Estácio, que ocupava um terreno muito grande para o bloco, dois mil metros quadrados. Aí ele falou: "Ó, vocês não têm para onde ir, vêm para cá. A gente constrói uma sede para vocês". Então, construiu uma coisinha assim pequenininha. Era nossa sede dentro do bloco. Eu percebi que lá tinha muita gente e não tinha lugar para as pessoas comerem. E o Lima, esse senhor, tinha uma cozinha ótima com fogão industrial e tudo. Daí eu falei: "Vamos fazer comida para vender!". Meu restaurante, que eu era sócia com o Lima, virou o maior sucesso do Estácio. Era uma coisa impressionante.
HBH: E você cozinha divinamente!
Gabriela: Eu gosto de cozinhar!
HBH: Você já me convidou para comer várias coisas e nunca fez nenhuma!
Gabriela: Mas, agora tem que ir! Vamos lá! Vou marcar! Mas fez muito sucesso. Aí eu inventei nas sexta-feiras de fazer um pagode. Um dia, eu saí para o mercado para comprar cebola, que tinha acabado, e eu tinha que descer uma rua lá no Estácio. Quando eu estou voltando, tinha uma fila na porta. Uma fila tão grande de gente para entrar no pagode, uma coisa impressionante! E aí foi assim que a gente viveu um tempo, antes de decidir a história do Davida. Não precisava ficar pegando dinheiro do Flávio para nada, tinha um restaurante. Mas só que quando o Davida começou mesmo, de vez, lá no Estácio, eu achei melhor parar a minha sociedade com o Lima porque sabe como é restaurante, né?! Ocupa muito o seu tempo! E também era muito cansativo. Foi muito importante esse período porque a gente ficou muito conhecido, as meninas da zona iam lá, em festas e tudo. Foi um período bem importante para começar o Davida. Aí, pronto, o Davida começou lá no Estácio. Nós ficamos lá alguns anos. Daí nós viemos para cá. Agora nós queremos mudar porque aqui está muito pequeno para nós. A gente quer mudar para o Centro da cidade. Mas é difícil, a gente está tentando uma casa com a subprefeitura.
HBH: Você tem muito funcionário aqui?
Gabriela: Nós somos, no total, vinte e tantas pessoas. Vinte e cinco, eu acho.
HBH: É bastante! Todos remunerados?
Gabriela: Todo mundo remunerado.
HBH: E vários projetos?
Gabriela: Vários projetos. Uma das coisas que a gente está criando agora é um núcleo de pesquisa. Registrado no CNPq e tudo.
HBH: Maravilha!
Gabriela: Para a gente discutir, fazer pesquisa sobre a prostituição. Depois, quem sabe Cadernos da Vida...
HBH: Ah, isso é bom!
Gabriela: Não é bom?! Não seria legal? E a gente tem a documentação que está sendo processada por umas meninas da Academia Brasileira de Letras que são voluntárias aqui. Elas são documentaristas.
HBH: O que que é? Digitalizar ou organizar?
Gabriela: Elas estão organizando e vão digitalizar. Mas é muita coisa e nós não temos espaço. O problema nosso, hoje em dia, é mais espaço do que profissional bom para trabalhar! Tem o Beijo da Rua...
HBH: Qual é a periodicidade dele mesmo?
Gabriela: De dois em dois meses.
HBH: Apertadinho, né?!
Gabriela: É! Agora mesmo o Flávio está fazendo o próximo número. Mas ele tem os antigos amigos dele que recebem um dinheirinho para escrever, mas que é, praticamente, tudo voluntário, porque são todos profissionais de nome e que ganham aí para fazer um número sei lá quanto. Trezentos reais! Isso não é nada! Mas eles gostam do Beijo. O Flávio tem uma equipe grande de amigos, da grande imprensa, que faz o Beijo.
HBH: Ele continua no JB?
Gabriela: Não! Ele saiu e está só aqui. E tem a Daspu...
HBH: Daspu é outra coisa?
Gabriela: Daspu é um projeto daqui. Nós registramos o nome e, agora, a gente vai trabalhar em uma história de plano de negócios e chegar a conclusão se vale montar uma microempresa ou não. Porque tem muita gente do Brasil afora pedindo franquia....
HBH: Que é de que exatamente?
Gabriela: Roupas. Mas a gente está recebendo oferecimento de tudo. De sapato com marca Daspu, tênis, perfume.
HBH: Como surgiram essas ofertas?
Gabriela: Os empresários mandam. Eu dei uma entrevista para a Istoé Dinheiro. A partir daí, um monte de empresário do Brasil afora mandou email oferecendo coisas. "Você não tem interesse de ter uma marca específica de tênis Daspu? Porque eu tenho uma fábrica de tênis e gostaria muito de trabalhar com vocês!" Tem um monte, um monte! E do exterior também, muita gente que quer representação. Já teve um cara que veio de Milão aqui comprar blusa.
HBH: Os vestidos eu não conheço!
Gabriela: Tem um vestidinho assim com aquela faixa que agora está usando muito. São bonitinhos. Tem um que é um tubinho tomara-que-caia, fez muito sucesso lá em São Paulo, escrito Daspu. Ele é preto com aqui roxo. Muito bonito.
HBH: Como as prostitutas estão organizadas?
Gabriela: São trinta associações no Brasil hoje.
HBH: Filiadas a ONGs?
Gabriela: Filiadas à Rede Brasileira de Prostitutas.
HBH: A rede é de quem?
Gabriela: A rede é nossa, do movimento. Aliás, é uma briga que eu tenho com as meninas. Esse país é muito cartorial. Você forma uma rede e as pessoas já querem fazer estatuto, registrar a rede, ter presidente, vice-presidente, tudo isso. Isso não é rede, não é verdade?!
HBH: Rede é horizontal!
Gabriela: Rede é outra história! São pontinhos, essas coisas. E é uma briga que eu tenho com as colegas todas aí pelo Brasil afora porque, volta e meia, vem uma história de engessar a rede.
HBH: E essa rede se comunica virtualmente?
Gabriela: Virtualmente, em reuniões. A gente tem uma história de fazer um projeto nacional com as individualidades. Eu trago todo mundo para cá, consigo o dinheiro de passagem para a gente fazer projetos comuns. Tudo é assim!
HBH: E os pontos dessa rede são estados?
Gabriela: São. Por exemplo, as meninas da Bahia que são, para mim, a mais moderna associação que nós temos, pois são meninas arejadas, jovens, elas agora têm uma rádio. Elas conseguiram com o Ministério da Cultura uma rádio que está fazendo o maior sucesso. Chama-se Zona FM. Maior sucesso a rádio delas!
HBH: Essa rádio toca o quê?
Gabriela: Todo tipo de música. Tem vários programas. Tem programa de conselhos sexuais, aquelas histórias que as pessoas mandam cartinhas, né?! Tem histórias de cartas procurando, às vezes uma prostituta perdeu a família e tal... E elas agora estão com um projeto com os artistas lá da Bahia, que era o grande sonho da Fátima, presidente da associação, de fazer uma novela radiofônica.
HBH: Show de bola! Você fizeram uma fotonovela sobre AIDS também, né?
Gabriela: Fotonovela! E isso foi em 1989, ainda no governo Sarney. Depois fizemos outros materiais. Agora nós temos uma campanha nacional realizada por todo mundo das várias associações junto com os bambambans que Brasília contrata, que é a nossa campanha nacional, que tem um personagem que é a Maria Sem Vergonha. Uma menininha que está em todos os nossos materiais de AIDS. E tem o spot de música para aquelas rádios com aquele homem que canta "Garçom", como é nome dele mesmo?! Reginaldo Rossi. Bem legal! Falando sobre AIDS e tal. Tem uma publicação que eu e o Roberto Chateaubriand, lá de Minas, que é um psicólogo que trabalha há muito tempo junto com a gente, fizemos sobre como trabalhar a prevenção de AIDS no meio da prostituição, das vulnerabilidades específicas, a questão do estigma, tudo. E tem uma agendinha, que faz muito sucesso com as meninas, onde se fala de tudo, não só de AIDS. E surgiu uma coisa engraçada e boa que todo mundo pelas associações aí afora, qualquer material que faz hoje, usa a menininha, sabe, a nossa personagem. É bem legal. Ela já ficou bem marcada. Essa é a nossa campanha.
HBH: Essa campanha é mais centrada na saúde geral?
Gabriela: É!
HBH: Saúde, violência, que mais que são os temas centrais?
Gabriela: Tem várias coisas. Tem também a dupla jornada de trabalho. Então tem a Maria Sem Vergonha cuidando da casa com uma carinha de chateada e tal. Várias coisas. Tem dicas. As meninas gostam muito. E tem adesivos também.
HBH: Não, eu digo no movimento, as demandas principais...
Gabriela: Ah, no movimento!
HBH: A última coisa que eu te pergunto para te deixar em paz.
Gabriela: No movimento, hoje, acho que a grande luta é a história da aprovação da lei do Gabeira. Para ver se muda essa relação que é muito difícil.
HBH: A relação entre...
Gabriela: Prostituta e empresário da prostituição. Porque não se tem direito nenhum.
HBH: E muitos deveres!
Gabriela: Muitos deveres! Então, eu acho que essa é a grande luta de todo mundo, de todas as meninas.
HBH: Porque a prostituição sem empresário não funciona muito bem, né?!
Gabriela: Mas dá para funcionar também, só que hoje não pode. Por exemplo, se a gente criar uma cooperativa automaticamente entra no Código Penal porque está explorando a prostituição. É isso! Muito complicado. Porque o Código Penal é de 1940. Quando esses artigos foram redigidos pelos juristas, a transa deles era de proteger as prostitutas, criminalizando o empresário. Mas aí você cria essas anomalias todas, porque a prostituta não é fora da lei, mas ela vive num ambiente fora da lei. Então, esse ambiente de marginalidade...
HBH: Ela não é fora da lei, mas a lei é omissa ou é nula?
Gabriela: Não é omissa!
HBH: Ela diz o quê? Que a prostituta tem direitos?
Gabriela: Não, é uma cidadã como outra qualquer e pronto, com direito de ir e vir. Terminando esse ano, que tem Copa do Mundo e eleição, essa confusão toda, a gente estará mais em Brasília, sabe, conversando com deputado. Porque você sabe que a bancada evangélica é imensa, a católica é imensa. É um horror! E o movimento homossexual, que tem um forte trabalho lá em Brasília, mesmo assim ainda não conseguiu aprovar a lei da união civil, eles têm um escritório em Brasília e ofereceram para nós se quisermos ocupar alguma coisa, mas esse ano não adianta.

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